Conversa pra boi dormir

“Prosopopéia flácida para acalentar bovinos”             

  Este é um texto no mais puro estilo MoneYou, “dizendo o que ninguém mais diz”. Ele é pequeno e serve para abordar um assunto que realmente merece pouca atenção, mas ainda assim, um assunto relevante. O tal do “jornalismo financeiro”.

                Vocês sabem do que estou dizendo: essas telinhas que vocês todos tem em suas mesas de operações piscando cotações, plotando gráficos e disparando os chamados “snaps” de notícias, que nós pagamos em alguns casos alguns bons milhares de reais por mês. Na maior parte das vezes essas notinhas apenas arranham um assunto, de leve, sem comprometer ninguém.

Às vezes, ou melhor, bem raramente, elas vêm carregadas com um pouquinho mais de conteúdo. Agora, o engraçado mesmo é quando elas disputam entre si “criando conteúdo” e ratificando aos quatro ventos que elas sim é que fizeram determinado preço no mercado.

                Quarta-Feira passada (09/05/13) uma delas começou a disparar para o operador incauto o que seriam “falas do Mantega”. Depois se viu que não eram falas do Mantega e sim “slides do Mantega”. Acontece que o Mantega estava dando uma palestra para os parlamentares da bancada do PT na Câmara e essa palestra era fechada à imprensa.

 Assim mesmo, os repórteres teriam se amontoado numa porta de vidro tentando “ler os slides” à distância e à medida que os iam conseguindo “ler”, iam disparando esses “snaps” na telinha da empresa que paga seus modestos salários.

                Agora o mais legal mesmo foi quando eles viram uma conexão entre algo que leram no slide e um movimento no mercado de DI que havia começado na véspera, mas eles não quiseram se atentar para isso. Mas foi isso mesmo: no dia seguinte, por causa de um slide que somente eles viram, o DI teria começado a se mexer, e mexer, e mexer.

                E mais interessante ainda foi a relação maquiavélica que eles viram no negócio: a curva de DI teria começado a empinar, segundo eles, apenas 30 minutos depois da abertura do mercado, porque no tal slide o Mantega “disse” que não abriria mão do crescimento do emprego, regardless…

Daí o mercado teria lido isso e concluído que o BC seria mesmo leniente com a inflação e teriam que colocar novamente uns trocentos basis points de premio na curva, como por exemplo, entre o DI Janeiro de 2015 e o DI Janeiro de 2017.

                Pasmo. Como se isso fosse também alguma novidade desde o último COPOM???

Realmente: aquele IPCA de 0,55%, sete basis acima do consenso da Bloomberg de 0,48% (e que também era com o que o mercado de NTN-B trabalhava em suas projeções), não deve mesmo ter nada a ver com isso. Imagine, claro que foi o slide do Mantega que somente eles conseguiram ler.

 Também não foi o fato de que na véspera, quarta-feira dia 08/05/13, por volta da hora do almoço, a corretora Itaú tomou de assalto, em um ou dois minutos, cerca de 30 mil lotes de DI Janeiro 2017 a 8,74% e posteriormente acompanhados por outros no resto da tarde em mais algumas dezenas de milhares de lotes, num movimento cujo início foi atribuído a um par de fundos e uma pessoa jurídica (operaram como “príncipes”, diga-se de passagem) e que teve somente um vendedor de peso. Não não, foi o slide do Mantega, apenas no dia seguinte.

                Também parece ter sido totalmente desprezado, pelos geradores de factóides nas telinhas o novo engasgo fiscal italiano, a emissão soberana brasileira externa em taxas um pouco piores, a “puxada” no dólar, enfim… nada disso tem importância. Foi o bendito slide do Mantega.

E claro, a empresa que vende aquela telinha, responsável por soltar os tais snaps, precisa mesmo tentar mostrar ao mercado que pode gerar factóides que agregam valor (?), afinal de contas, apareceu um novo concorrente que tem, agora, abalado as estruturas.

O concorrente já conseguiu até mesmo detalhes minuciosos do acordo do Sr. Eike Batista com a Petronas com antecedência de dias sobre a efetiva divulgação de fato relevante na CVM (a lei de inside information não serve pra nada nesse país?)

                Agora o mais deprimente de tudo é quando outra empresa estrangeira que também vende telinhas no país adota aquilo como verdade, como eu vi ontem. Na falta de capacitação técnica dos repórteres e dos editores, e na dificuldade de conseguirem contato com boas fontes para trabalhar suas “notas de mercado”, recorrem ao que outros escrevem, muitas vezes não procurando eles próprios ver lógica ou falta de, naquilo tudo.

É como se você quisesse tornar verdade a mentira de outrem simplesmente porque aquilo também serve de factóide para que você venda mais telinhas (ou ache que). Triste.

                De qualquer forma, hoje não teve Mantega e seus slides assassinos, mas assim mesmo, o que vimos foi uma bela de uma stopada. DI Janeiro de 2015 e DI Janeiro de 2017, no entanto, continuaram operando no mesmo diferencial que já haviam marcado ontem nos minutos que precedem o fechamento (64 pontos).

 Fato que o dólar pressionado também tende a piorar um pouco o técnico dos DIs mais longões, mas, assim mesmo, não se pode dizer que o jornalista hoje consiga ver qualquer relação em tudo isso se ontem o que eles usaram como argumento para se justificar o aumento da inclinação de DI foi um doce e singelo “slide dovish” do Sr. Mantega…

                Jornalismo Financeiro é coisa séria no Brasil. Tão sério que às vezes faz até boi dormir.

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"O coruja" possui 15 anos de experiência no mercado financeiro, tendo ocupado posições com trader, coordenador de investimentos e broker de equities e derivativo em diversas instituições brasileiras. Economista com pós graduação, "O Coruja" abordará temas entre trading e histórias do mercado. O uso da coruja como homônimo vem da antiga grécia, onde o animal era fiel companheiro da deusa Atena e considerado um símbolo de sabedoria, prestatividade, e possui poderes proféticos. É também o símbolo dos notívagos, pessoas que por muitas vezes possuem habitos noturnos, ou "funcionam melhor à noite".
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