Não há nada no deserto

“There is nothing in the desert… and no man needs nothing”

                A frase acima, dita pelo andróide David no filme Prometheus e que fora emprestada do filme Laurence da Arábia em um momento de diálogo entre o personagem de Peter O’toole e seu amigo, o Príncipe Feisal, pode despertar inúmeros tipos de interpretação em inúmeros contextos, se corretamente aplicada. Neste artigo, pratico uma delas a título de exemplo.

O Brasil ruma ao que podemos imaginar como sendo um deserto econômico. Em um deserto econômico tudo se torna muito escasso: mão de obra qualificada, capital (mesmo o especulativo), investimentos, consumo, exportações, importações… Mesmo o gasto público se torna cadente e não só em percentual sobre o produto interno bruto como também em sua qualidade.

A economia desertificada não oferece atrativos: é inóspita, ardente e desgastante. Você procura o que seria um oásis, ou seja, um ponto de refresco em todo aquele ambiente agressivo e tudo o que encontra é mais daquele ambiente agressivo. Não encontra boas opções de investimento: elas não irão oferecer uma taxa interna de retorno suficientemente atrativa para se investir e em parte isso se deve ao fato de que não há um mercado doméstico robusto e qualificado.

Por esta mesma razão, você também não encontra boas opções de importação e também não é capaz de criar valor agregado suficiente para exportar em volume e qualidade para os países desenvolvidos… ”Sinuca de bico” é pouco para ilustrar quem caminha por um deserto econômico. Se você puder sair dele, ou nem mesmo cair nele, ótimo. Caso contrário, as chances de morte são imensas…

Recentemente vimos o que acontece quando um país se encontra em um deserto econômico: a Venezuela teve seu ditador socialista morto e nem por isso foi capaz de gerar qualquer volatilidade nos preços do petróleo como poderia ocorrer outrora, tratando-se de um membro da OPEP.

Hugo Chávez com sua política socialista ditatorial foi o responsável pela desertificação econômica da Venezuela. O quê é a Venezuela hoje? Um baita monte de nada… Você investe na Venezuela? Consegue encontrar mão de obra qualificada na Venezuela que justifique qualquer investimento expressivo? Consegue exportar qualquer coisa da Venezuela que não seja um pouco de petróleo? Consegue vender lá qualquer coisa de alto valor agregado em grande quantidade? O quê o governo local faz pelo seu povo além de emburrecê-lo e materializar um gasto público de péssima qualidade?

Já repararam como o Brasil cresce pouco e assim mesmo apresenta taxa de desemprego baixa e inflação em aceleração? Isso é resultante do “estreitamento” de algo que conhecemos em economia como hiato do produto. Seria algo como a diferença entre o produto interno bruto real e o produto interno bruto hipoteticamente possível caso todos os fatores disponíveis – capital e trabalho – estivessem sendo amplamente empregados. Quanto menor esse hiato, mais estreita é a relação entre oferta agregada e demanda agregada e disso resultam pontos de equilíbrio em níveis de preço cada vez maiores. Inflação. Você tem que se perguntar: por que esse hiato do produto, no Brasil, reduziu tanto então?

A resposta é: porque o Partido dos Trabalhadores, que ocupa o poder executivo federal há quase 12 anos, possui um projeto de poder que compreende a desertificação econômica brasileira. Não há expansão significativa do produto potencial que levaria a uma inflação menor, porque não há nem investimento nem geração de mão de obra qualificada. E não há, porque politicamente, quem está no poder não quer…

                Dinheiro para isso não falta: de 2008 para cá vimos os Bancos Centrais ao redor do mundo todo abarrotar as economias de dólares. Nos Estados Unidos, parte disso ficou represada na forma de caixa das empresas, parte disso virou especulação em Wall Street, e o resto foi em busca de mais yield, como China, México, Brasil, entre outros.

Na Europa, mesmo em menor medida, o programa de salvamento branco de seu sistema financeiro também gerou liquidez nas economias emergentes. E agora temos o Japão despejando novos Yenes no planeta, retendo parte em seu próprio país, mas com certeza fazendo com que parte expressiva continue funcionando como moeda de funding, gerando ainda mais liquidez nas economias emergentes.

                Assim mesmo, o país cresce peanuts. A participação do setor privado no investimento (portanto nas grandes decisões alocativas de capital) é cadente vis a vis o crescimento da participação do BNDES e dos demais bancos estatais no funding de crédito (e que tem o Tesouro por trás).

O Partido dos Trabalhadores a cada ano cria um ambiente institucional mais e mais desfavorável para novos investimentos, através de sua leniência com uma inflação que é estrutural, através da mudança de regras e quebra de contratos nas concessões públicas – como vimos o absurdo realizado no setor elétrico e que levou a perdas bilionárias de patrimônio público sem o menor questionamento da sociedade – e principalmente através de uma política industrial absolutamente discricionária e despropositada via redução de alguns impostos sem grande importância (basta ver a renúncia fiscal anunciada por estas medidas como percentual do PIB) de setores que tem bom lobby no governo.

                Você espera crescimento de mais de 3% do PIB esse ano? Eu dou risadas… E isso em cima de uma base de comparação baixa! Você espera uma inflação bem comportada, próxima de 5,5% ao ano? Continuo dando risadas… Você espera que o país continue desfrutando de bons ratings de crédito soberano com uma política fiscal cada vez mais relaxada diante deste baixo crescimento e alto nível de inflação? Boa sorte. Não se surpreenda se o país levar algum downgrade esse ano ok?

                Não há nada no deserto, e nenhum homem precisa de nada.

A desertificação da economia brasileira por aqueles que atualmente ocupam o executivo ainda é algo que parece poder ser revertido, embora a cada ano de forma mais difícil. Haverá um “ponto de não-retorno” teórico que será quando o FED passar a enxugar a liquidez que ele mesmo gerou e aumentar a taxa dos “Fed funds”. Se a partir desse ponto não tivermos feito nada para reverter o processo de desertificação da economia brasileira será tarde demais, seremos uma Venezuela gigante, e de fato, não precisaremos de nada…

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"O coruja" possui 15 anos de experiência no mercado financeiro, tendo ocupado posições com trader, coordenador de investimentos e broker de equities e derivativo em diversas instituições brasileiras. Economista com pós graduação, "O Coruja" abordará temas entre trading e histórias do mercado. O uso da coruja como homônimo vem da antiga grécia, onde o animal era fiel companheiro da deusa Atena e considerado um símbolo de sabedoria, prestatividade, e possui poderes proféticos. É também o símbolo dos notívagos, pessoas que por muitas vezes possuem habitos noturnos, ou "funcionam melhor à noite".
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