O susto do FED

O mercado se mostrou bastante consternado com a ata da última reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) do Fed, principalmente no que cerne a redução ou mesmo eliminação do programa de compra de ativos, o Quantitative Easing (QE3).

O temor é que a falta desta injeção de recursos afete a liquidez, principalmente o mercado acionário e leve também à queda de outros ativos como o ouro, pois a redução de injeções reduz o potencial inflacionário.

O rendimento dos títulos do tesouro americano despencou com o rally global pelo dólar e as commodities incrementaram o ritmo de perdas já observado há alguns dias.

Porém, não existe sinalização concreta de quando deva acontecer e o Fed diz que manterá atento aos rumos dos indicadores econômicos para definir o quanto ou se deterão o processo.

Essa mudança de comunicação pode ser um dos primeiros sinais de que o Fed deva alterar em breve suas projeções sobre o crescimento e a capacidade de recuperação da economia americana.

Já começamos a observar exageros entre analistas, como no The Gartman Letter que diz que estava comprado (bullish) em ações e agora quer sair por completo, por acreditar no fim do rally das bolsas.

Usando um termo em inglês, para mim isso é “from bullish to bullshit”. Besteira da grossa. Essa é uma visão de que as altas nas bolsas de valores foram causadas de maneira solitária pelos programas de injeção de liquidez.

Pior ainda, há um temor infundado de que haverá uma mudança profunda na psicologia dos mercados e de que a menor liquidez (a qual ninguém sabe ainda se ou quando será reduzida) atingirá primeiramente os investidores para então afetar fortemente a economia.

Obviamente, os programas acomodatícios globais tem transferido uma parcela muito significativa dos recursos aos mercados de risco e essa tendência poderia aumentar cada vez mais, pois ainda existe espaço para taxas de juros ainda mais baixas.

O que vejo nessa mudança de comunicação do Fed é algo extremamente positivo e não esse terrorismo de que sem ele, o rally das bolsas não se sustenta.

Essa comunicação, eu creio, é o início do processo do voo solo dos EUA com a recuperação mais sólida de seus indicadores macroeconômicos.

Mantenho minha projeção para a reversão dos problemas de 2008 somente em 2018, porém em algum momento o Fed deve começar a sinalizar que a situação está mudando.

Apesar da disparidade de alguns dados econômicos, a média continua positiva e melhor, as empresas estão ainda com uma taxa de investimento baixa e deste modo, os caixas entupidos de dinheiro.

Sinceramente, eu ficaria mais preocupado se o Fed indicasse a necessidade de um avanço ainda maior ou mais longevo do QE3, pois demonstraria que as injeções de liquidez feitas até agora falharam no seu principal objetivo, a recuperação econômica.

Já se fala em bolha no mercado de equities e do estouro da mesma com a mudança de comunicação. Nem uma coisa, nem outra. O termo ‘bolha’ implica um movimento muito, mas muito mais forte do que este que observamos desde novembro nos mercados internacionais.

Não só mais forte, porém com maior duração. As bolsas de valores já demandam algum nível de correção e de fechamento de alguns gaps técnicos do recente rally, mas para ganharem impulso e não deflagrar um movimento baixista (bearish) que não combina com os recentes resultados das empresas.

Alguns membros do Fed indicaram que o ideal seria reduzir o programa mesmo antes de atingir as metas pré estabelecidas, de desemprego aos 6,5% e inflação ao máximo de 2,5%.

Este é um dos trechos mais importantes da ata:

Most participants judged that there had been some reduction in downside risks facing the economy: Strains in global financial markets had eased somewhat, and U.S. fiscal policymakers had come to a partial resolution of the so-called fiscal cliff. Supported by a highly accommodative stance of monetary policy, the housing sector was strengthening, and the unemployment rate appeared likely to continue its gradual decline. Nearly all participants anticipated that inflation over the medium-term would run at or below the Committee’s 2% objective.”

“A maioria dos participantes considerou que houve certa redução dos riscos de deterioração que a economia enfrenta: As amarras nos mercados financeiros globais haviam se reduzido e os formuladores de políticas fiscais dos EUA tinha chegado a uma resolução parcial do chamado ‘abismo fiscal’. Apoiado por uma postura altamente acomodatícia da política monetária, o setor imobiliário foi fortalecido e a taxa de desemprego provavelmente deve continuar em seu declínio gradual. Quase todos os participantes anteciparam que a inflação de médio prazo seria mantida em ou abaixo dos 2% de meta do comitê.”

Portanto, ao invés de uma leitura catastrófica, vejo um Fed se mostrando mais confiante no processo em andamento e com a perspectiva de que os EUA possam não precisar mais de tantos recursos como até agora dispensados.

 

 

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Jason Vieira é o Editor-Chefe e Diretor Geral da MoneYou e executivo sênior da X-Infinity Invest. Com mais de 20 anos de mercado, já ocupou cargos de estrategista, CIO, economista-chefe e analista internacional em instituições como Apregoa.com, UpTrend Advisors, GRC Visão, KGP, CM Capital Markets, Sanwa Bank, CLSA, JP Morgan, Santander, entre outras. Economista formado pela Universidade Mackenzie, possui diversas extensões de mercado financeiro e economia, com forte foco internacional.
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