Perdemos a Guerra Cambial

Infelizmente Sr. Mantega, de posse das mais recentes informações que tivemos do seu front de batalha, devo alertar ao senhor de que todos os esforços empreendidos na guerra cambial que o senhor tentou travar contra os Estados Unidos da América não surtiram efeito. O senhor perdeu a guerra, Sr. Mantega.

Acredito que agora à noite quando foi anunciado que o senhor resolveu zerar o IOF sobre a posição líquida vendida em derivativos de câmbio dos bancos, o senhor praticamente assinou sua rendição.

Não é culpa do mercado. O mercado apenas reflete diariamente, através de seus mecanismos de negociação de ativos, as percepções e expectativas que ele possui da realidade e da liquidez, bem como do ambiente macroeconômico onde ele existe. Sr. Mantega.

O senhor não foi capaz de fazer com que suas ações nos últimos três anos se traduzissem em melhores percepções, melhor liquidez, ou mesmo melhor ambiente macroeconômico. A guerra cambial que o senhor tentou travar contra os Estados Unidos da América só nos trouxe malefícios. Andamos para trás, literalmente, ao invés de avançarmos com ordem e progresso.

Recentemente escutei, Sr. Mantega, que devemos procurar fazer apenas críticas construtivas ao governo. Em primeiro lugar eu não sei bem o que é uma “crítica construtiva” já que a princípio uma crítica sempre vai ao sentido de destruir ou desqualificar o que se julga ser ruim ou errado.

Mas entendi o que a pessoa quis dizer como sendo algo no sentido de que as discussões sobre o mercado, e sobre o ambiente macroeconômico doméstico, devem ter conteúdo técnico e não apenas conteúdo apelativo ou político.

De minha pessoa, isso não faz o menor sentido Sr. Mantega, já que minhas criticas, como Economista e profissional do Mercado Financeiro, são sempre “construtivas”. As discussões que procuro fazer sobre o mercado são sempre com conteúdo técnico, e não meramente apelativas.

Não estou no jogo para fazer política ou defender cegamente meus investimentos, eu simplesmente quero o melhor para o país e para o futuro do meu filho. Como a princípio, todos os políticos deveriam querer não por vaidade ou mesmo ideal, e sim por obrigação democrática.

Em primeiro lugar, o senhor falhou em buscar o melhor para o nosso país quando começou a criar amarras cambiais, visando defender uma indústria doméstica sucateada.

O senhor tentou corrigir com o câmbio todas as nossas ineficiências burocráticas, logísticas e fiscais de décadas. Ao invés de simplesmente desonerar nossa indústria para torná-la mais competitiva – estou falando de desoneração real não arbitrária, diferente do atendimento discricionário ao lobby de determinados segmentos que o senhor fez aplicando uma renúncia fiscal mínima – bem como o nosso consumo, o senhor optou por artificialmente tentar gerar um pouquinho mais de renda para o exportador.

Para atingir esses objetivos, o senhor praticamente transformou nosso Banco Central em uma maquina leniente com a inflação cem por cento voltada à compra de Dólares e depreciativa do Real.

Em segundo lugar, ao invés de se aproveitar da enxurrada de Dólares dos últimos anos direcionando-a corretamente para a expansão do nosso produto potencial via investimentos produtivos, o senhor fez com que Tesouro Nacional e BNDES fossem concorrentes da iniciativa privada de maneira absolutamente desleal, pois o fez à base de nossa capacidade de arrecadação de tributos e contabilidades criativas.

Em terceiro lugar, este governo foi exímio em criar um ambiente institucional e regulatório totalmente desfavorável ao investimento privado doméstico e, sobretudo estrangeiro. Não precisamos lembrar mais uma vez o que foi feito com o setor elétrico, para nossa vergonha, e que terminou por custar mais de dez bilhões de reais de prejuízo em nosso patrimônio público, em nome de uma pretensa redução de inflação irrisória na “conta de luz”.

Para vossa sorte, a mídia desqualificada desse país mal arranhou esse ponto em sua realidade. E o lado mais nefasto de tudo isso é o que será produzido na percepção estrangeira da baderna doméstica que pode ser nossa economia, nos anos – e tomara que não, décadas – por vir.

Nosso país sofreu um bombardeio pesado, por sua culpa, quando o Federal Open Market Committee se reuniu pela última vez. Conforme abordei em meu texto anterior, “O treasury quebrou o treasurer” aqui no MoneYou, os efeitos da simples perspectiva de uma redução próxima do ritmo de compra de bônus por parte do FED já começaram a serem sentidos em nossa economia de maneira forte.

Em resumo estamos falando de taxas de cambio fora de seu controle – sim senhor – e um mercado de capitais doméstico completamente machucado, que agora vive em novo ambiente de incerteza crescente e alta volatilidade de preços. Temo até mesmo pela fração irrisória de novos investimentos sobre o produto interno bruto nos meses e anos em diante em função dos erros desse governo.

Caso o senhor tivesse optado por simplesmente aceitar a política norte-americana e se valer destes Dólares em nosso benefício, ao invés de tentar lutar uma guerra da maneira mais economicamente débil que posso pensar o senhor não precisaria, hoje, assinar sua rendição tentando dar um pouquinho mais de munição a um mercado de derivativos cambiais que o senhor mesmo praticamente destruiu.

 O senhor não precisaria hoje, como dizemos no jargão popular, “enfiar o rabo entre as pernas” e tentar produzir correndo um superávit primário que é, também no jargão popular, bem “meia boca”.

Li pela imprensa que o senhor disse que nós merecíamos um upgrade da agência Standard & Poor’s ao invés de um downgrade, pois nossa economia está ganhando força, a produção está acelerando e a inflação está caindo. Será que essa guerra cambial terminou por mexer com sua razão e sua emoção Sr. Mantega, de tal modo a fazer com que o senhor faça colocações irreais sobre nossa situação?

Perdemos a guerra cambial Sr. Mantega. Aceite o fato. Perdemos. Entendeu? Ou vai querer fazer cara de paisagem novamente?

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"O coruja" possui 15 anos de experiência no mercado financeiro, tendo ocupado posições com trader, coordenador de investimentos e broker de equities e derivativo em diversas instituições brasileiras. Economista com pós graduação, "O Coruja" abordará temas entre trading e histórias do mercado. O uso da coruja como homônimo vem da antiga grécia, onde o animal era fiel companheiro da deusa Atena e considerado um símbolo de sabedoria, prestatividade, e possui poderes proféticos. É também o símbolo dos notívagos, pessoas que por muitas vezes possuem habitos noturnos, ou "funcionam melhor à noite".
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