Quem tem medo de Ben Bernanke

Eu me segurei para escrever isso, mas não deveria. Numa conversa com alguns amigos de mercado durante os temores do fim do Quantitative Easing 3, deixei claro que Bernanke foi acima de tudo mal interpretado e que não entraríamos em ritmo de realização de lucros total.

Bem, ao fim do dia, com as quedas nas bolsas de valores e a expectativa com a divulgação do PMI chinês, todas as atenções de meus amigos se voltaram a mim, como se o que eu disse não ocorresse.

Na manhã do dia seguinte, a China apresentou contração pela sétima medida consecutiva, o Nikkei fechou com queda de mais de 7% e a Europa abria toda no vermelho. Basta dizer que recebi uma ligação de um desses amigos às 7 da manhã (por sorte acordo bem antes disso).

“E aí, cara?!?! O mercado tá cag..o hoje. Continua firme no que tu falou?”. Respondi que sim, óbvio, pois no mercado a primeira lição é nunca se deixar levar pela emoção, mesmo que seu dinheiro esteja em risco.

O fechamento de Nova York ontem confirmou em partes minha tese e os investidores americanos expressaram uma visão diferente do dia anterior. Obviamente, precisamos mais do que uma sessão para reafirmar isso, mas vamos colocar os pontos em questão.

Primeiramente, a comunicação do Federal Reserve é um dos seus maiores ativos, como deve ser de todo banco central. Já tivemos isso muito claramente posto no Brasil com as gestões passadas, onde o BC mandava recados claros e muitas vezes o “mercado” e a “economia real” entendiam e operavam em cima disso.

Hoje no Brasil é uma panaceia, onde um membro do BC se contradiz no mesmo dia em que fez uma afirmação e a maioria dos sinais carece de lógica.  Voltando aos EUA, a mensagem foi clara: “O desemprego está melhorando, mas ainda está aquém do considerado minimamente ideal. A economia continua a crescer em ritmo apenas moderado e a inflação baixa precisar ser resolvida”.

Isso são sinais mais do que claros de que os programas de liquidez não acabarão pura e simplesmente. Quando o Fed diz que pode haver uma redução, isso se baseia na série de indicadores econômicos neste sentido, exatamente o que tem sustentado parte das altas nas bolsas de valores.

Obviamente, com tal inflação, falar de alterar o atual plano do Fed não significa elevar os juros, o que, aliás, teria consequências nefastas neste momento. Todavia, a redução da quantidade de dinheiro derramada por Bernanke e companhia tem que ser colocada na conta em algum momento.

Os ativos para isso já citei acima, a série de indicadores econômicos que surpreendem a cada divulgação. Não é nada que se diga “Oh, que economia aquecida”, mas é superior à depressão pós 2008 e ao considerarmos o cenário prospectivo da autoridade monetária, deve haver uma previsão do momento em que o derrame deva ser reduzido.

Bom, isso deveria ser um bom sinal, mas as pessoas queriam ouvir literalmente “não temos previsão para o fim do QE3” e não foi isso que ouviram; taí a reação do mercado. No Japão o susto foi maior, pois se os EUA deixam de serem atraentes como estão, a demanda pelo Yen pode crescer novamente e a última coisa que precisa acontecer é uma supervalorização da divisa, portanto, apesar das altas do Nikkei, o Japão está extremamente sensível.

Mais uma coisa, o processo de redução de liquidez deve ser mais do que gradual e lento e não deve ocorrer antes de uma sustentação mais concreta dos indicadores econômicos, principalmente os ligados ao mercado de trabalho.

Com isso, voltamos àquela meta de redução do desemprego do Fed abaixo de 6,5% e não há espaço para alterações de programa antes que esta meta seja alcançada. Neste ponto, muitos questionam o porquê destes anúncios agora e posso dizer uma coisa, as projeções macroeconômicas devem conter alguma coisa para sustentar tais afirmações.

Por fim, até agora não errei no que disse. O Fed foi mal interpretado, mas já está avisando de suas intenções futuras de, caso a economia consiga apresentar indicadores mais firmes, haverá o fim gradual da enxurrada de dólares no mercado.

Não meçam pelo mercado de hoje, pois os americanos estão se preparando para o Memorial Day e ninguém está afim de estresse. Agora, convenhamos, uma realização de lucros, após mais de vinte recordes de alta nas bolsas de valores não faria mal a ninguém neste momento.

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Jason Vieira é o Editor-Chefe e Diretor Geral da MoneYou e executivo sênior da X-Infinity Invest. Com mais de 20 anos de mercado, já ocupou cargos de estrategista, CIO, economista-chefe e analista internacional em instituições como Apregoa.com, UpTrend Advisors, GRC Visão, KGP, CM Capital Markets, Sanwa Bank, CLSA, JP Morgan, Santander, entre outras. Economista formado pela Universidade Mackenzie, possui diversas extensões de mercado financeiro e economia, com forte foco internacional.
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