Um Tombini na Mantega

“Só falta combinar com os russos” a célebre frase de Mané Garrincha deveria ser dita ao ministro da Fazenda, Guido Mantega. Não é a primeira vez que o ministro, ao ser confrontado com seus erros, anuncia eventos não compatíveis com as decisões do Banco Central.

Eu mesmo fui testemunha de tal feito, quando em um evento de Hedge Funds em Miami em outubro de 2010, o então presidente Henrique Meirelles proferia uma palestra e garantia que nenhuma taxação a mais ocorreria além da renda fixa. Na sua segunda palestra, no dia 6, Meirelles se mostrava indignado, pois aparentemente não havia sido informado da inclusão de debentures e fundos de renda variável na taxação.

Porém, como todos sabem, naquele momento uma elevação de 4% tinha eficácia completamente discutível, pois ao considerarmos uma Selic de 10,75% aa e em franco e absoluto processo de ascensão, tal taxação seria facilmente absorvida pelos investidores.

A correção do erro veio na forma de uma elevação de 6% do IOF, desta vez mais eficiente, pois incluía taxação de 6% sobre a margem de garantia nas operações do mercado futuro. A eficiência foi para afastar de vez o investidor estrangeiro e provar que dele não era a culpa pela valorização do Real frente ao dólar.

No dia 18 de outubro de 2010, quando foi anunciada a elevação, o dólar batia um dos seus menores níveis em meses (R$ 1,666) e a medida o levou para R$ 1,740 em novembro, para então retomar a trajetória de queda até os R$1,555 em julho de 2011. Mais uma vez, a política econômica Doriana mostrava seus erros.

O ministro insiste na questão cambial, pois para ele, a desvalorização cambial é elemento essencial para a competitividade dos produtos brasileiros no exterior. Essa é a lógica econômica, que nem sempre funciona no Brasil.

A competitividade dos produtos brasileiros tem problemas históricos e estruturais que fazem com que algo produzido no exterior tenha um custo mais baixo do que um similar produzido localmente. Isso não é só câmbio, pois produzimos mal, taxamos demais e contamos com péssima logística, além da lucratividade consideravelmente mais alta.

Um exemplo até ingênuo foi de uma compra no supermercado. Um queijo tipo gruyère nacional custava R$ 59 o kilo, enquanto o francês, de boa procedência, custava R$ 45 o kilo. Desde quando produzimos queijos deste tipo melhor que os franceses? Desde nunca.

O custo Brasil sempre pesará mais do que a questão cambial e só nos tornaremos competitivos com o dólar a R$ 3, porém nos tornaremos um país caro aos brasileiros, que dependem muito de um conjunto bastante arraigado na economia de importações. Desde bens de capital, matérias primas até bens finais.

Pior ainda, esse câmbio deixaria ainda mais claro que o problema brasileiro vai muito além do fluxo de capital estrangeiro, como demonstrado pós-taxações de IOF em 2010 e de juros, como demonstrado no péssimo resultado da economia no último trimestre, o qual contou com Selic aos 7,25% ao ano, a mais baixa da história e dólar próximo dos R$ 2,10.

Agora, sem nenhum aval do BC, Butters diz que inflação se lida com juros e não câmbio. Desculpe senhor ministro, juros não são os únicos e solos instrumentos de controle de inflação, sendo completamente plausível o controle cambial. O mercado já interpreta que o BC elevará os juros ainda no primeiro semestre, na linha contrária da bandeira da presidente Dilma, dos “juros mais baixos da história”.

Em ano de possível reforma ministerial, vejo pela primeira vez a possibilidade de cabeças antes consideradas seguras serem cortadas. Butters coleciona uma quantidade considerável de fracassos, principalmente quando comparamos o Brasil a outras economias emergentes e até às industrializadas, como EUA.

Para crescermos de 3,5% a 4% neste ano, o esforço deve ser fenomenal, mesmo que elementos presentes em 2012 facilitem a vida dos brasileiros neste ano. O estoque de devedores deve diminuir e a tomada de crédito pode se acelerar, devido à alteração do perfil das dívidas.

Porém os bancos, como demonstrado em seus resultados, elevaram em muito os critérios de cessão de empréstimos e mesmo com juros mais baixos, é fácil encontrar taxas muito semelhantes àquelas praticadas durante os períodos de altas da Selic, mas não aquela “da Camila Pitanga”, como as pessoas dizem agora, ao relembrar os comerciais da Caixa Econômica.

Neste cenário, Tombini é um dos presidentes de BC com menor credibilidade do mercado, pois até Meirelles, se tinha uma noção de independência institucional forte, mesmo que essa não fosse estabelecida por lei. Agora, a sensação é de que o Banco Central se rende às demandas da presidente e atua conforme sua vontade.

Incrivelmente, mesmo com este BC encoleirado, a Fazenda continua descoordenada com ele em suas ações e por isso vemos a situação atual.

A inflação atual está longe de ser baseada no consumo e por isso, a elevação dos juros não vai surtir o efeito esperado e mais uma vez veremos um erro tentar corrigir o outro, mas a pergunta é: até quando?

O ano de 2012 foi perdido e 2013 já não começou muito bem. Dilma depende de um bom desempenho econômico para uma recondução ao cargo tranquila nas eleições majoritárias (em menos de 2 anos) e somente a Copa do Mundo não vai ajudar a presidente, que se vê concorrência da oposição, muito provavelmente na forma de Aécio Neves e Marina Silve e de concorrência interna, na forma de Eduardo Campos e mesmo do ex presidente Lula.

 

 

 

 

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Jason Vieira é o Editor-Chefe e Diretor Geral da MoneYou e executivo sênior da X-Infinity Invest. Com mais de 20 anos de mercado, já ocupou cargos de estrategista, CIO, economista-chefe e analista internacional em instituições como Apregoa.com, UpTrend Advisors, GRC Visão, KGP, CM Capital Markets, Sanwa Bank, CLSA, JP Morgan, Santander, entre outras. Economista formado pela Universidade Mackenzie, possui diversas extensões de mercado financeiro e economia, com forte foco internacional.
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